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Fração de ejeção na cintilografia do miocárdio: o que os números do laudo querem dizer
Por: Dr. Renato Barra

Fração de ejeção na cintilografia do miocárdio: o que os números do laudo querem dizer

O laudo da cintilografia de perfusão miocárdica costuma trazer duas informações diferentes, e é comum confundi-las. Uma é sobre irrigação: se chega sangue suficiente em todas as áreas do músculo cardíaco. A outra é sobre força: o quanto o coração consegue bombear a cada batida. Essa segunda é a fração de ejeção.

Este texto explica o que cada uma quer dizer, sem substituir a conversa com o seu cardiologista — que é quem lê esses números junto com a sua história e o seu exame físico.

O que é fração de ejeção

O ventrículo esquerdo enche de sangue e depois se contrai para empurrá-lo ao corpo. Ele nunca esvazia por completo. A fração de ejeção é o percentual do sangue que sai a cada contração.

Se o ventrículo tinha 100 mililitros e ejetou 60, a fração de ejeção é de 60%. Não existe fração de ejeção de 100%, e um valor muito alto também pode ter significado clínico.

Na cintilografia, esse cálculo é possível porque o exame é sincronizado com o eletrocardiograma. O equipamento acompanha o coração ao longo do ciclo e consegue medir o volume nos dois momentos.

As faixas que aparecem no laudo

Fração de ejeçãoComo costuma ser descrita
Acima de 50 a 55%Função sistólica preservada
Entre 41 e 49%Função sistólica levemente reduzida
Igual ou abaixo de 40%Função sistólica reduzida
Abaixo de 30%Redução importante

Duas observações que evitam susto desnecessário:

A faixa de normalidade varia conforme o método. O valor medido pela cintilografia, pelo ecocardiograma e pela ressonância cardíaca pode ser diferente no mesmo paciente, no mesmo dia. São técnicas distintas, com softwares distintos. Por isso o acompanhamento ao longo do tempo deve, sempre que possível, comparar exames do mesmo tipo.

Número isolado não é diagnóstico. Uma fração de ejeção de 48% em alguém sem sintoma e sem outras alterações tem leitura completamente diferente da mesma fração em quem tem falta de ar aos esforços e um infarto prévio.

A outra metade do laudo: perfusão

O exame é feito em dois momentos — em estresse (esforço físico na esteira ou medicação que simula o esforço) e em repouso. O radiofármaco se distribui pelo músculo do coração proporcionalmente ao sangue que chega em cada área, e a comparação entre as duas fases é o que revela o problema.

Daí nascem os termos mais comuns do laudo:

O que está escritoO que costuma significar
Captação homogênea, sem defeitosO sangue chega bem a todas as áreas nos dois momentos
Defeito reversível (ou transitório)Uma área capta menos no estresse e normaliza no repouso. É o padrão que sugere isquemia: o músculo está vivo, mas a irrigação não acompanha o esforço
Defeito fixo (ou persistente)A área capta menos nos dois momentos. Costuma corresponder a tecido cicatricial, em geral de um infarto prévio
Defeito parcialmente reversívelMistura dos dois: há cicatriz e também área ainda isquêmica em volta
HipocaptaçãoCaptação reduzida em uma área
AtenuaçãoInterferência de estruturas do corpo, como mama ou diafragma, que reduz o sinal sem que haja doença. O laudo costuma dizer quando a redução é atribuída a isso

A extensão também pesa. Um defeito pequeno e um defeito que ocupa boa parte de uma parede do coração têm consequências diferentes para a conduta.

O que o laudo não diz

A cintilografia mostra como o sangue chega ao músculo. Ela não mostra as artérias e não diz qual vaso está entupido nem em que grau. Quem faz isso é a angiotomografia de coronárias ou o cateterismo.

Por isso o laudo não indica tratamento. Ele entrega uma informação funcional que o cardiologista combina com sintomas, fatores de risco, eletrocardiograma e outros exames para decidir entre acompanhar, ajustar medicação ou investigar as artérias.

Quando a fração de ejeção muda

Ela não é um número fixo. Pode cair por infarto, doença do músculo cardíaco, hipertensão descontrolada por muitos anos, doença de válvula, arritmia persistente, consumo pesado de álcool, quimioterapia com medicamentos que afetam o coração.

E pode melhorar. Tratamento adequado — medicação otimizada, controle de pressão, revascularização quando indicada, suspensão da causa — recupera a função em uma parte relevante dos casos. É por isso que o acompanhamento com exames seriados existe.

O que fazer com o seu laudo

  • Leve ao cardiologista que pediu o exame, com as imagens, não apenas o laudo.
  • Leve também os exames anteriores. A comparação com o resultado de um ano atrás costuma valer mais que o número de hoje.
  • Anote seus sintomas antes da consulta: falta de ar, cansaço aos esforços, dor no peito, palpitação, inchaço nas pernas.
  • Não interrompa nem ajuste medicação por conta própria depois de ler o resultado.

Perguntas frequentes

Qual é a fração de ejeção normal?

Em geral, acima de 50 a 55%. A faixa exata varia conforme o método usado e o software de processamento, e é o laudo do seu exame que traz a referência aplicada.

Fração de ejeção de 45% é grave?

Está na faixa descrita como levemente reduzida. A gravidade depende dos sintomas, da causa e da evolução ao longo do tempo — não do número isolado. Quem avalia é o cardiologista.

Qual a diferença entre defeito reversível e defeito fixo?

O reversível aparece só no esforço e normaliza no repouso, sugerindo isquemia com músculo ainda viável. O fixo aparece nos dois momentos e costuma corresponder a área de cicatriz.

Por que a fração de ejeção do meu ecocardiograma é diferente?

Porque são técnicas diferentes de medida. Uma diferença de alguns pontos entre métodos é esperada. Para acompanhar evolução, o ideal é comparar exames do mesmo tipo.

A fração de ejeção pode melhorar?

Pode. Com tratamento adequado da causa, a função sistólica se recupera em parte relevante dos casos. É um dos motivos de o exame ser repetido ao longo do acompanhamento.

Cintilografia alterada significa que vou precisar de cateterismo?

Não necessariamente. A decisão depende da extensão do defeito, dos sintomas e do conjunto do quadro clínico. Muitos casos são conduzidos com ajuste de medicação e acompanhamento.

O exame mostra qual artéria está entupida?

Não. A cintilografia avalia a chegada de sangue ao músculo, não as artérias. Para ver os vasos, são usados a angiotomografia de coronárias ou o cateterismo.

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