O laudo da cintilografia de perfusão miocárdica costuma trazer duas informações diferentes, e é comum confundi-las. Uma é sobre irrigação: se chega sangue suficiente em todas as áreas do músculo cardíaco. A outra é sobre força: o quanto o coração consegue bombear a cada batida. Essa segunda é a fração de ejeção.
Este texto explica o que cada uma quer dizer, sem substituir a conversa com o seu cardiologista — que é quem lê esses números junto com a sua história e o seu exame físico.
O que é fração de ejeção
O ventrículo esquerdo enche de sangue e depois se contrai para empurrá-lo ao corpo. Ele nunca esvazia por completo. A fração de ejeção é o percentual do sangue que sai a cada contração.
Se o ventrículo tinha 100 mililitros e ejetou 60, a fração de ejeção é de 60%. Não existe fração de ejeção de 100%, e um valor muito alto também pode ter significado clínico.
Na cintilografia, esse cálculo é possível porque o exame é sincronizado com o eletrocardiograma. O equipamento acompanha o coração ao longo do ciclo e consegue medir o volume nos dois momentos.
As faixas que aparecem no laudo
| Fração de ejeção | Como costuma ser descrita |
| Acima de 50 a 55% | Função sistólica preservada |
| Entre 41 e 49% | Função sistólica levemente reduzida |
| Igual ou abaixo de 40% | Função sistólica reduzida |
| Abaixo de 30% | Redução importante |
Duas observações que evitam susto desnecessário:
A faixa de normalidade varia conforme o método. O valor medido pela cintilografia, pelo ecocardiograma e pela ressonância cardíaca pode ser diferente no mesmo paciente, no mesmo dia. São técnicas distintas, com softwares distintos. Por isso o acompanhamento ao longo do tempo deve, sempre que possível, comparar exames do mesmo tipo.
Número isolado não é diagnóstico. Uma fração de ejeção de 48% em alguém sem sintoma e sem outras alterações tem leitura completamente diferente da mesma fração em quem tem falta de ar aos esforços e um infarto prévio.
A outra metade do laudo: perfusão
O exame é feito em dois momentos — em estresse (esforço físico na esteira ou medicação que simula o esforço) e em repouso. O radiofármaco se distribui pelo músculo do coração proporcionalmente ao sangue que chega em cada área, e a comparação entre as duas fases é o que revela o problema.
Daí nascem os termos mais comuns do laudo:
| O que está escrito | O que costuma significar |
| Captação homogênea, sem defeitos | O sangue chega bem a todas as áreas nos dois momentos |
| Defeito reversível (ou transitório) | Uma área capta menos no estresse e normaliza no repouso. É o padrão que sugere isquemia: o músculo está vivo, mas a irrigação não acompanha o esforço |
| Defeito fixo (ou persistente) | A área capta menos nos dois momentos. Costuma corresponder a tecido cicatricial, em geral de um infarto prévio |
| Defeito parcialmente reversível | Mistura dos dois: há cicatriz e também área ainda isquêmica em volta |
| Hipocaptação | Captação reduzida em uma área |
| Atenuação | Interferência de estruturas do corpo, como mama ou diafragma, que reduz o sinal sem que haja doença. O laudo costuma dizer quando a redução é atribuída a isso |
A extensão também pesa. Um defeito pequeno e um defeito que ocupa boa parte de uma parede do coração têm consequências diferentes para a conduta.
O que o laudo não diz
A cintilografia mostra como o sangue chega ao músculo. Ela não mostra as artérias e não diz qual vaso está entupido nem em que grau. Quem faz isso é a angiotomografia de coronárias ou o cateterismo.
Por isso o laudo não indica tratamento. Ele entrega uma informação funcional que o cardiologista combina com sintomas, fatores de risco, eletrocardiograma e outros exames para decidir entre acompanhar, ajustar medicação ou investigar as artérias.
Quando a fração de ejeção muda
Ela não é um número fixo. Pode cair por infarto, doença do músculo cardíaco, hipertensão descontrolada por muitos anos, doença de válvula, arritmia persistente, consumo pesado de álcool, quimioterapia com medicamentos que afetam o coração.
E pode melhorar. Tratamento adequado — medicação otimizada, controle de pressão, revascularização quando indicada, suspensão da causa — recupera a função em uma parte relevante dos casos. É por isso que o acompanhamento com exames seriados existe.
O que fazer com o seu laudo
- Leve ao cardiologista que pediu o exame, com as imagens, não apenas o laudo.
- Leve também os exames anteriores. A comparação com o resultado de um ano atrás costuma valer mais que o número de hoje.
- Anote seus sintomas antes da consulta: falta de ar, cansaço aos esforços, dor no peito, palpitação, inchaço nas pernas.
- Não interrompa nem ajuste medicação por conta própria depois de ler o resultado.
Perguntas frequentes
Qual é a fração de ejeção normal?
Em geral, acima de 50 a 55%. A faixa exata varia conforme o método usado e o software de processamento, e é o laudo do seu exame que traz a referência aplicada.
Fração de ejeção de 45% é grave?
Está na faixa descrita como levemente reduzida. A gravidade depende dos sintomas, da causa e da evolução ao longo do tempo — não do número isolado. Quem avalia é o cardiologista.
Qual a diferença entre defeito reversível e defeito fixo?
O reversível aparece só no esforço e normaliza no repouso, sugerindo isquemia com músculo ainda viável. O fixo aparece nos dois momentos e costuma corresponder a área de cicatriz.
Por que a fração de ejeção do meu ecocardiograma é diferente?
Porque são técnicas diferentes de medida. Uma diferença de alguns pontos entre métodos é esperada. Para acompanhar evolução, o ideal é comparar exames do mesmo tipo.
A fração de ejeção pode melhorar?
Pode. Com tratamento adequado da causa, a função sistólica se recupera em parte relevante dos casos. É um dos motivos de o exame ser repetido ao longo do acompanhamento.
Cintilografia alterada significa que vou precisar de cateterismo?
Não necessariamente. A decisão depende da extensão do defeito, dos sintomas e do conjunto do quadro clínico. Muitos casos são conduzidos com ajuste de medicação e acompanhamento.
O exame mostra qual artéria está entupida?
Não. A cintilografia avalia a chegada de sangue ao músculo, não as artérias. Para ver os vasos, são usados a angiotomografia de coronárias ou o cateterismo.
✏️ Escrito e revisado por Dr. Renato Barra
Médico Especialista em Medicina Nuclear | CRM 14838 DF | RQE 11390
📅 Última revisão pelo autor: 14/10/2026 • Ver perfil no Doctoralia ↗
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